O que é real?

JOSÉ LAÉRCIO DO EGITO  F.R.C.

"É mais sábio aquele que duvida..."

Tema 56
1976- 3328

Sábio é aquele que duvida, assim começamos esta palestra. Somente através da dúvida é que muitas vezes se pode chegar à verdade.

Através do tempo muitos pensadores tiveram grande dificuldade em afirmar algo como uma realidade. Para um pensador, mergulhado na análise filosófica dos problemas do Universo, o sentido de realidade é tão sério que os orientais filiados a algumas correntes de pensamento chegam a dizer que este mundo é o mundo de Maya, o mundo das ilusões, o mundo onde nada é verdadeiro. Para outros, o Universo nada mais é do que uma forma de pensamento, uma ideia na Mente de Deus. Tudo isto não é tão absurdo quanto parece ser. Para um pensador que não tenha conhecimentos profundos de metafísica é fácil enveredar por um caminho que necessariamente o levará a tirar conclusões de que vivemos num mundo irreal, num universo de ilusões. Tanto é assim que o grande filósofo e matemático René Descartes chegou a duvidar metodicamente de tudo, e julgar importante e possível vencer a dúvida, evitando-a. Usou, para chegar à certeza, o caminho da dúvida, o que o levou à admissão do “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo).

Começaremos afirmando que nada é mais falho do que as definições de dicionários e enciclopédias sobre o significado de Realidade: Realidade é aquilo que existe efetivamente. Esta definição nos leva a uma pergunta: O que existe efetivamente? Como se ter a certeza de que algo existe? A definição ficaria mais completa assim: “Realidade é aquilo que existe efetivamente em nossa consciência objetiva”.

Quando começamos a analisar subjetivamente qualquer fenômeno, como o fazem os místicos e pensadores, surge uma seqüência de dúvidas sobre a realidade das coisas.

Na Idade Média surgiu um movimento filosófico que considerava o conhecimento do mundo exterior como realidade objetiva e que se denominou REALISMO. Claro que aquele sistema ruiu facilmente diante de uma linha de raciocínio mais profundo porque, diante de fatos da vida real, ele se mostrou inadequado. O alvorecer da ciência atual completou a destruição daquele sistema, pois a própria ciência lançou esplêndida parcela de dúvidas sobre a quase totalidade dos registros objetivos, que no passado somente eram feitos através dos sentidos físicos. Foram as descobertas científicas que demonstraram que os registros sensoriais pouco significam, que eles são errôneos em grande parte.

Procuraremos inicialmente situar o problema dentro dos conhecimentos referentes às manifestações vibratórias e por certo poderemos tirar conclusões deveras interessantes. Tudo aquilo de que tomamos consciência no mundo material chega ao cérebro através de ondas de natureza vibratória e, graças às variações de frequências, é que dizemos: ouvimos algo, vemos algo, sentimos algo, etc. Escolhamos algo para análise. Aquilo que tomarmos em consideração emite vibrações para os nossos órgãos sensoriais, do contrário não detectaríamos nada e aquilo não existiria para nós. Conforme o órgão que detecta as vibrações é que o cérebro registra um som, uma cor, uma forma, etc.

Se quisermos analisar mais profundamente aquele emissor chegaremos logo à conclusão de que ele não emite apenas aquelas radiações que detectamos diretamente. Suponhamos um aparelho de rádio. Ele transmite ondas sonoras aos nossos ouvidos, mas paralelamente ele emite também outras vibrações indicadoras de cor, de temperatura, da sua forma, e muito mais coisas que simultaneamente são transmitidas e não são conscientizadas.

A ideia que fazemos de um objeto qualquer é o resultado do somatório das vibrações detectadas, mas isto não indica que temos consciência total de tudo o que é emitido. Disto advém que nunca temos consciência completa de um objeto, mas tão somente consciência de algumas informações fragmentárias.

No comentário que fizemos a respeito das características das manifestações vibratórias, dissemos que vivemos mergulhados num turbilhão de ondas das mais diversas frequências, e que um emissor nunca emite somente uma mensagem vibratória, uma informação única e isolada. Citamos que um transmissor de rádio não transmite somente ondas sonoras, pois alguém que estiver perto dele verá a sua forma, sentirá o calor do aparelho, etc., e, se alguém fosse dotado de outros órgãos sensoriais, registraria muito mais coisas. Isto ocorre porque temos poucos órgãos sensoriais, que nos levam a ter ciência apenas de uma parcela da natureza do emissor.

Outro ponto que vale ser assinalado diz respeito à conscientização de um mesmo evento procedida através de órgãos sensoriais diferentes.

Consideremos uma corda de um instrumento musical. Ela produz unicamente vibrações que são detectadas pelo órgão da audição, e no cérebro se processa a conscientização de som. Contudo, se a mesma corda tivesse contato com alguma parte do corpo a pessoa sente como que um “tremor”, uma vibração. Assim a corda está produzindo uma mesma coisa, mas que é conscientizada como sendo duas diferentes. Isto decorre de haver sido captada por dois órgãos sensoriais diferentes. Perguntemos o seguinte: O que é um som para um surdo, desde que ele sinta o fenômeno através do tato? É fácil compreender que ele sente algo totalmente diferente daquilo que uma pessoa comum que usa a audição sente.

No exemplo que demos antes, o que seria aquela corda vibrante para um hipotético ser de visão “ciclópica” que visse além da estrutura atômica? Na realidade ele veria apenas uma “essência” vibrando. Podemos dizer que a consciência que temos de um fenômeno depende diretamente da natureza do órgão receptor. Vimos que uma corda vibrante, com um determinado tipo de detector como o ouvido, permite a conscientização de som; com outro, o tato, a conscientização da vibração mecânica.

Pelo que estamos mostrando, podemos sentir como é difícil se estabelecer uma definição clássica para o que significa real. Acreditamos efetivamente que só existe uma coisa real no mundo creado: Vibração da essência das coisas; tudo o mais é fruto do tipo de detector que dispusermos. Pelo exemplo anterior podemos dizer que nem o som e nem a sensação táctil são realidades absolutas. Neste fenômeno o que inegavelmente mais se aproxima do real é a vibração.

Ante um evento que detectamos como cor, odor, sabor, som, etc., nada disto é real, são apenas sensações mentais diferentes de uma mesma coisa por captação por órgãos sensoriais diferentes. No exemplo dado antes é som e sensação táctil porque a pessoa só tem dois tipos de órgãos detectores para registrar o evento, mas, se tivesse outros órgãos diferentes do da audição e do tato, por certo uma coisa bem diferente seria conscientizada.

Para uma pessoa que fita o firmamento, o Universo é aquele esplendor de luz registrado pela visão. Ele se apresenta, então, como um amontoado fantástico de pontos luminosos. Enquanto isto, para um astrônomo num telescópio, ele é algo bem maior e muito mais rico em pontos luminosos e, graças à decomposição do espectro da luz com prismas especiais acoplados ao telescópio (espectroscópio) o Universo passa a ser algo bem diferente, pois tudo fica cheio de cores. Usando-se os recursos da fotografia com filmes especiais sensíveis ao infravermelho e ao ultravioleta, o Universo toma um sentido bem diverso apenas por se mudar um tipo de conversor que possibilitou a percepção de freqüências (I.V. e U.V.) antes não assinaladas. Enquanto isso, mesmo o universo para um cego de nascimento não passa de uma coisa que tem calor e solidez sobre o que ele vive e caminha.

Se o mais habilitado dos astrônomos do passado fosse a um observatório e ali visse as análises astronômicas da atualidade feitas por inúmeros aparelhos, se visse os traçados efetivados por um radiotelescópio, etc., por certo ele não reconheceria aquilo como um observatório astronômico. Em vez de uma abóbada repleta de pontos luminosos ele veria um amontoado de papéis, de registros gráficos, de imagens em telas de computadores. Assim sendo, para um radioastrônomo, o universo apresenta-se bem diferente de como se apresenta para um astrônomo ótico. Para um, uma miríade de luzes, e, para o outro, uma sucessão de riscos gráficos e sons com os quais ele mentalmente constrói um modelo mental, ou um computador monta uma imagem. Num observatório astronômico moderno há registros de corpos que só são detectados por ondas de Raios X, por radiações gama, etc. Assim sendo há um universo “inexistente” sensorialmente, pois diretamente não é detectado nenhum daqueles corpos que o são pelos sistemas citados. Na verdade o universo não é esse modelo que vemos, nem sequer aquele que um astrônomo ótico vê, nem aquele que um radioastrônomo registra, e por certo nem mesmo o que vier a ser percebido por outros sistemas.

Agora pensemos qual seria a conceituação de universo para as diferentes categorias de astrônomos se não houvesse um consenso entre as especialidades, se não ocorressem deduções comparativas de leis que regem os vários ramos especializados? Por certo a opinião dos diferentes tipos de astrônomos seria totalmente diferente.

Um objeto qualquer só é reconhecido como tal, como sendo uma mesma coisa por diferentes pessoas, se estas forem dotadas de órgãos receptores semelhantes. Assim sendo, um determinado objeto, por mais usual que seja, seria de difícil reconhecimento à primeira vista para alguém que, de um minuto para outro, fosse agraciado com mais sentidos físicos novos, capazes de interceptar outras irradiações. A conscientização requereria deduções mentais para uma identificação precisa, pois todas as características de um determinado objeto seriam diferentes.

Sabemos que as serpentes percebem os seres vivos graças a um órgão situado na fosseta loral (órgão sensorial especial daqueles répteis). Naquele ponto a onda infravermelha do calor animal é convertida em percepção pelo cérebro. Assim a serpente percebe, de uma forma totalmente diferente da visão, os seres vivos, onde não é possível a percepção humana detectar. A exata sensação decorrente daquela percepção é algo inconcebível para nós humanos. Para um ser humano que fosse dotado de um órgão semelhante àquele, qual seria a imagem mental de outro ser humano que ele observasse? Detectando os raios infravermelhos do corpo a imagem seria bem diferente, pois haveria um halo de irradiação em torno da imagem visualizada que se estenderia por um espaço amplo, interpenetrando-se com outros halos, numa situação que nos é impossível sentir.

Com o exemplo acima consideramos apenas o acréscimo de um órgão, e então indagamos: o que ocorreria se fossem vários órgãos com diferentes capacidades?

Pensemos agora na imagem mental criada por um cachorro que dispõe de um órgão olfativo altamente desenvolvido.

Para um biólogo é fácil pensar nas inúmeras possibilidades das diferentes espécies no campo das percepções.

A maior parte dos animais não tem visão binocular – que forma uma só imagem pelos dois olhos – e, portanto, não conta com a visão de profundidade – em 3 dimensões – e as imagens conseqüentemente são planas. Também a grande maioria deles não dispõe da visão colorida, portanto só isto basta para eles terem um mundo em preto e branco, portanto bem diferente do mundo colorido visto pelos seres humanos. Para um ser humano uma paisagem parece algo bem mais completo, desde que os olhos humanos possuem detectores especiais para a visão em cores. Somente por dispor desses detectores aptos para certos comprimentos de ondas na faixa das cores a imagem já é conscientizada de forma diferente daquela como é feita pelos animais.

Pensemos um pouco como são as percepções visuais dos seres aquáticos, que vivem em baixo da água onde ocorrem todos os tipos possíveis de refrações luminosas. É fácil se perceber que lá as formas das coisas têm aspectos completamente distorcidos como resultado da refração luminosa. No reino animal existem seres que são cegos, que não têm órgão da visão, como certos peixes que vivem em cavernas, como os que têm a visão atrofiada que em nada contribui para eles perceberem as coisas, mas que, em compensação, são dotados de uma excepcional acuidade de outros órgãos.

Conhece-se bem um órgão sensorial de que os morcegos são dotados. Trata-se de um órgão que emite um som de alta frequência que, ao incidir sobre um obstáculo, é refletido e detectado pelo ouvido que dispõe de acuidade adequada para isto. É uma espécie de radar. Certos cetáceos emitem e percebem ultrassons, micro-ondas e coisas assim. Pensem no como se apresenta o mundo para eles.

Os olhos das moscas e de outros insetos são compostos, são milhares de olhos independentes, cada um deles captando uma imagem própria. Assim chegam ao cérebro simultaneamente imagens múltiplas de uma mesma coisa. Vale pensar como deve ser o aspecto das coisas para aqueles insetos. Certamente algo verdadeiramente fantástico e absurdamente diferente daquela imagem que se forma no cérebro humano quando vê o mesmo objeto. Evidentemente se num determinado momento o ser humano ficasse dotado daquele tipo de olhos, por certo ele não reconheceria nada daquilo que antes lhe era habitual, tudo tomaria outras formas, características especiais e bem diversas daquelas que os olhos humanos fornecem ao cérebro.

Existem insetos que dispõem de órgãos olfativos tão precisos que sentem odores de coisas que estão muitos quilômetros distantes.

Podemos dizer que no universo as formas de percepções são infinitamente numerosas.

As pessoas têm uma tendência a transportar para outros seres, para outros reinos, os valores da percepção humana. O que ainda é pior, eles pensam que os seres de outras formas de existência têm as mesmas formas de perceber as coisas. Um espírito percebe tudo de forma absolutamente diferente, pois ele não tem órgãos sensoriais, portanto tem outras formas de perceber as coisas. Reconhece as coisas porque, sendo dotado de razão, pode estabelecer parâmetros e formular conceitos que permitem o estabelecimento de conclusões. Acontece como no exemplo dos diferentes sistemas astronômicos que fazem análises das observações e chegam a um consenso comum quanto ao aspecto do firmamento que cada um “vê” de uma forma especial. Um espírito que viveu na terra forma uma imagem mental que equivale a uma percepção, mas o que eles “veem” realmente é algo inconcebível para nós. Por experiência mística podemos dizer que há uma sensação de visão e de audição, mas são sensações já devidamente elaboradas pela mente espiritual. Também numa experiência mística há percepções de natureza totalmente diferente daquelas que se fazem presentes através dos órgãos físicos.

Só o que acabamos de dizer basta para termos que reformular tudo o que se tem escrito e dito a respeito do mundo espiritual. Muitas das imagens mentais são como que “montagens” cerebrais, estruturações segundo conceitos que se tem das coisas.

Após estas considerações, nos detenhamos um pouco e pensemos como um mesmo ambiente se modifica de uma forma quase que absoluta pela modificação dos órgãos detectores. Qual é realmente o aspecto das coisas? – Por certo não é qualquer um daqueles visualizados pelos diferentes seres. Aquilo que parece a realidade para um deles em verdade não o é para outro.

Um outro ponto que não deve ser deixado à margem nesta palestra diz respeito ao pensamento atual da Física Quântica. Quando se estuda o sentido de REALIDADE precisa-se considerar o PRINCÍPIO DA INDETERMINAÇÃO DE HEISENBERG (1901-1976). Segundo esse princípio há um limite teórico para a precisão, uma vez que não se pode medir simultaneamente e com absoluta precisão a posição e a quantidade de movimento de qualquer objeto no universo. Segundo o Princípio da Incerteza de Heisenberg, observar é perturbar. Evidentemente que muitos pensam que o Universo existe independentemente do observador, mas isto não é verdade, porque o simples fato de se observar é o bastante para se modificar aquilo que é observado.

Só é possível se fotografar a trajetória de uma partícula subatômica porque a iluminação necessária para o registro fotográfico do evento, um fóton, foi de encontro à partícula, mas aquele “encontro” inevitavelmente acarreta alteração da verdadeira posição da partícula, consequentemente aquilo que ficou registrado não corresponde mais à posição da partícula e sim à posição que ela tomou depois de ser atingida pelo fóton.

Outro ponto que merece apreciação diz respeito ao fato da matéria, por mais densa que seja, só representa uma aparência, porque na intimidade de suas moléculas as partículas estão “girando” num vórtice incrível. Como consequência nenhuma imagem de qualquer objeto é a mesma quando ele é visto duas vezes seguidas; por menor que seja o intervalo de tempo considerado, o arranjo interno daquilo que é observado já se modificou de forma imensa. Macroscopicamente parece que a coisa é a mesma, mas, submicroscopicamente, tudo já se modificou. Numa fração ínfima de tempo, por exemplo, um milionésimo de segundo, ou bem menos, já é o suficiente para que o objeto em evidência haja se transformado subatomicamente. A disposição íntima de suas partículas que turbilhonam incessantemente já é outra. A cada fração ínfima de tempo as partículas já não ocupam a posição exata de antes. Isto a nível grosseiro das percepções sensoriais não tem significação alguma, mas em nível de cálculos de física nuclear deve merecer atenção pela grande importância que têm.

Quando se fala de objeto pensa-se logo em estabilidade, numa estrutura estável, mas no mais sólido dos sólidos tudo está se alterando com uma velocidade incrível, mas, como isto ocorre num ritmo fantástico, os sentidos físicos imperfeitos não registram as mudanças. Graças a isso é que naquele objeto parece não estar havendo alterações, quando na verdade no objeto estão ocorrendo alterações em dois níveis, um de grande velocidade e outro extremamente lento. (Nas palestras seguintes nos aprofundaremos nisto.)

De todos estes comentários acreditamos que, tanto quanto estamos convictos, nada daquilo que percebemos de alguma coisa é realmente aquilo que julgamos ser. Temos consciência de que aquilo que percebemos das coisas é apenas a soma de algumas frequências vibratórias e não de todas elas que só assim revelariam o que a coisa é na realidade. Desta feita, nunca estamos detectando absolutamente o tudo de alguma coisa.

Construímos a realidade de algo por aquilo que examinamos segundo o que detectamos parcialmente pelos órgãos que dispomos, e por dispositivos especiais que criamos, para efetivar uma conversão de frequência em outras que possam originar percepções cerebrais.

Para limitar ainda mais a realidade das coisas há outro fator tremendamente significativo, que diz respeito a fatos ligados às reações psicológicas de quem faz uma observação.

Sabemos que várias pessoas que observam algo simultaneamente nunca são unânimes nas conclusões. É muito comum duas pessoas observarem uma mesma coisa e, como consequência de estados psicológicos diversos, terem consciência de coisas diferentes. São inúmeros os exemplos citados nos tratados de psicologia. 

Pessoas com alterações fisiológicas e bioquímicas podem apresentar condições que resultam em diferentes graus de conscientização diferentes de um mesmo fenômeno, como é o caso do daltonismo, em que o órgão visual é incapaz de perceber a cor verde, percebendo apenas certa tonalidade de vermelho. Assim sendo o mundo para ele é diferente do mundo para as pessoas não acometidas daquela alteração visual.

Se, por exemplo, dispuséssemos daquele órgão das serpentes que lhes faculta perceber os raios infravermelhos, um objeto qualquer, quando fosse visto à noite e quando fosse visto durante o dia, seria completamente diferente nas duas observações. Diferente porque o calor diurno faria com que ele emitisse maior quantidade de infravermelho, em conseqüência o aspecto daquilo que é observado tomaria um aspecto diferente. Na verdade haveria grande diferença entre uma observação feita à noite e outra feita durante o dia.

Quem nos acompanhou nesta palestra compreende agora algumas das razões que levaram os pensadores a duvidarem de tudo, de só terem certeza da incerteza. No tempo de Descartes não havia ainda sido feito um estudo profundo das vibrações. Desconhecia-se quase tudo a respeito do Universo e especialmente de que tudo aquilo que o constitui é tão somente manifestações vibratórias.

Para terminar, assinalemos que apenas um conceito se enquadra na definição de REALIDADE. Tudo no mundo creado é o resultado de algum nível de vibração de uma “essência” primeva, consequentemente as únicas realidades existentes no Universo são: UM MEIO ESSENCIAL EM VIBRAÇÃO, de natureza passiva e que pode ser representada graficamente como uma das pontas de um triângulo, e outra condição que sabemos ser capaz de fazer vibrar aquele primeiro elemento, e que pode ser representado pela segunda ponta do triângulo. Finalmente da interação entre aquelas duas polaridades resulta a terceira ponta do triângulo, que é a manifestação de tudo aquilo que existe, porém de uma forma dinâmica que jamais poderá ser concretizada como “a coisa em si”. As três realidades únicas do Cosmos que citamos são elemento constitutivo da natureza do Poder Superior, por isto pode-se dizer:

A ÚNICA REALIDADE ABSOLUTA EXISTENTE
É O PODER SUPERIOR, TUDO MAIS É RELATIVO E IRREAL.

Mecanismos defensivos do ego

JOSÉ LAÉRCIO DO EGITO  F.R.C.

"Mais vale uma hora de sábio do que uma vida de tolo."
Adágio popular.

Tema 1285
2000 - 3353

O ser em nível psico-emocional está constantemente sendo alvejado por inúmeros fatores externos no sentido dualístico e estabelecendo defesas-ego". 

Existem muitos fatores que ameaçam o ser em seu nível psíquico e que não o lesionam fisicamente, mas que violam a integridade do "eu" defendido pela muralha do "ego". O "ego" funciona como um escudo que procura reter as injúrias psíquicas que possam ameaçar o "eu". Este pode perceber que está sendo alvejado, mas muitas vezes isto se passa de forma que a pessoa não percebe, mas mesmo assim ocorrem conseqüências sobre a sua integridade. Visando proteger o "eu" a mente constrói um sistema de mecanismos defensivos, desde simples modos de agir até outros altamente destrutivos, como estudaremos oportunamente.

O ser humano vive numa perene luta contra códigos, contra paradigmas, estabelecidos pelas religiões, pelo estado, pela família, e por ele próprio. Trata-se de um sistema de conceitos de errado e de certo; de pecado e de virtude, de mal e de bem. Tudo isto são apenas conceitos desde que na unicidade não há lugar tais coisas. Embora sejam convenções ainda assim, estas são a causa básica de todo o sentimento de culpa existente nos seres. 

O que as religiões fazem no campo espiritual é idêntico ao que a Psicologia faz em nível de "ego". As religiões estabelecem códigos morais que visam convencer as pessoas a aceitá-los como "princípios divinos", como "desígnios", "desejos" ou "determinações de Deus", depois as induzem a se sentirem culpadas se não os obedecem, se cumprem ou não as determinações. Se a pessoa cumpre, ela não se sente em conflito, não haverá culpas e assim se sente espiritualmente em paz, portanto em um estado de "céu". Do contrário ela se sente em pecado, portanto num estado de "inferno". Assim vivem as pessoas, imersas em conceitos que geram culpa e culpa gera sofrimentos. A inobservância das normas morais gera o remorso, gera uma angústia por desobedecer àquilo que ela incorporou como certo. Mas, isto gera um tipo de angústia que pode ser chamada de "angústia secundária", diferente da "angústia existencial" que pode ser chamada de "angústia primária". Esta representa um estado muito mais profundo que não se baseia na desobediência a paradigmas constituídos, mas sim à ameaça induzida pela competição com os pretensos múltiplos "eus". Superar a angústia secundária é bem mais simples que superar a primária, pois para tanto basta obedecer aos códigos que a culpa cessa e com ela todas as conseqüências, mas o mesmo não acontece em se tratando da angústia existencial. A angústia secundária é estabelecida pelo sentimento de violação dos códigos vivenciais, portanto basta cumpri-los para que ela cesse assim também todas as suas conseqüências. Mas o mesmo não se pode dizer da angústia existencial, pois esta não se baseia em códigos violados, mas sim no arraigado conceito da dualidade. Assim sendo, somente com a libertação do conceito de dualismo existencial é que ela poderá ser aniquilada. Nisto consiste a libertação do ser, mas não basta aceitar teoricamente que a dualidade é uma ilusão, mas sim se sentir uno e isto corresponde aquele estado que as doutrinas orientais chamam de Nirvana. 

A principal característica da ilusão da dualidade é o surgimento do "ego". Este, em grande parte, é construído basicamente por códigos aceitos, e isso é o que faz uma pessoa se sentir diferente das demais. O Eu é eterno, é único, está isento de sofrimentos, enquanto que o "ego" é efêmero, algo criado pela própria pessoa desde a sua primeira manifestação no mundo imanente. Grande parte da vida neste mundo imanente consiste numa perene luta de criar condições egoicas, de criar regras de conduta pessoais - códigos - e também de aceitar muitos que lhes são sugeridos ou impostos, ou de afastá-las e modificá-las. Isto constitui um processo muito difícil de se sair dele, o qual é chamado de "Roda da Vida" ou "Sansâra". Podemos dizer que o "ego" é parte essencial do Sansâra. Sem o "ego" não haveria individualidade alguma. 

A psicologia clássica age da mesma forma que as religiões, ela faz a pessoa reconhecer os paradigmas ensinando-lhe métodos de convivência sem conflitos com eles. Conduz a pessoa a viver sem conflitos, reforçando a auto-imagem, mas sem visar o semelhante. Ensina o viver bem consigo mesmo estabelecendo métodos para a pessoa só ver a si mesmo, e não ter conflitos por tudo aquilo que possa infringir aos demais. Reforça o "ego" transformando-o em um rochedo; centraliza tudo na própria pessoa, o que representa um tremendo reforço da individualidade. Gera um "ego" tão sólido que a pessoa convive com o mundo sem conflitos, mas não diminui de forma alguma angústia existencial. 

Com uma sólida estrutura egóica a pessoa deixa de sofrer porque cristaliza o problema em nível de "ego", assim os conflitos deixam de ser problemas, e como conseqüência a pessoa pode viver em paz, viver bem, mas não plenamente curado porque persiste em toda sua intensidade a angústia existencial, a Psora Latente. Tanto as religiões comuns quanto a psicologia, não levam a um estado de libertação daquilo que a Homeopatia chama dePsora Latente, pois na verdade elas acorrentam o ser uma condição irreal que é o "ego". Se alguém sofre por uma culpa a psicologia reforça o "ego" no sentido dela passar a aceitar aquilo como algo não conflitivo fazendo-a não se sentir culpada, portanto conseguindo viver relativamente bem, mas mesmo assim muito distante da libertação do estado de "angústia existencial". 

As religiões, ao menos, induzem a pessoa viver sem conflitos e sem causar culpa nos demais, enquanto a psicologia isto não é levado em conta. Isto acontece porque a psicologia vê o mundo pessoal como "eu" e os "outros". Tenta eliminar o sofrimento do "eu" em detrimento dos "outros". Este é um lema da psicologia, mesmo que os psicólogos neguem-no: Viva bem consigo mesmo procurando resolver o seu próprio problema, não interessando os demais. Cada um é cada um. Viva bem consigo mesmo, e esqueça os outros, isto é o que a psicologia tradicional incentiva. Para ela cada um é cada um, o que vale é viver sem culpa, mas para isto faz uso do reforço do "ego", sem saber que isto é apenas uma ilusão. Isto acontece porque os próprios psicólogos, em sua grande maioria, vivem na ilusão da realidade do "ego, não percebendo que a pessoa é um fragmento de uma Consciência Maior. Sem esse conhecimento faz a pessoa continuar perdida no mundo fragmentário, estreito e limitado da Imanência, em vez de auxiliá-la a compreender que o "ego" individual não vai além de uma auto-imagem artificial. 

Não toda a Psicologia, mas algumas linhas acreditam que o viver sem conflito é um estado de liberdade, não se dando conta porém de que este mundo dialético funciona num nível restrito, que a liberdade na imanência é semelhante a um prisioneiro que de adaptou à própria cela, onde por um determinado tempo não percebe que está vivendo num nível restrito, sendo por isto incapaz de assimilar a riqueza total de outras experiências existenciais "interiores" e "exteriores". São incontáveis os mecanismos sociais, morais, familiares, econômicos, institucionais, etc, que têm como objetivo fazer a pessoa viver bem através de uma cristalização do "ego". 

O "ego" é algo que a pessoa acredita ser a sua própria natureza pessoal, esquecendo que se trata de um amontoado de conceitos individualizantes. A individualidade é o que há de mais marcante nas pessoas a nível se mundo imanente. É o "ego" que separa, que diferencia, que fragmenta, portanto que afasta o individuo da sua natureza essencial "una" que na verdade está representada pela expressão: "Os altos fins da existência". O mais elevado fim da existência é aniquilação da dualidade, o pleno retorno à origem, o que indica o "passar da posição de egoísta para o de altruísta" conforme se expressava o Mestre Thomas Pablo Paschero, eminente homeopata argentino. Vemos que é exatamente o "ego" quem mantém "samsara" citado pelas religiões védicas. 

Para conseguir se sentir mais seguro como individualidade distinta a pessoa lança mão de uma série de mecanismos egóicos, de fórmulas através dos quais ela amplia a autoconfiança, mas cuja conseqüência direta é a ampliação da descontinuidade, o aumento da separação, e tudo isto é relegar a verdadeira natureza do ser "uno" a um plano de inexistência, não se importando com a problemática dos demais. Ao "eu" divisionário o que importa é ele se sentir bem a despeito das demais, a "parte" - pessoa - continuar acreditando ser uma entidade separada da Natureza Única. 

Na verdade as religiões tendem configurar um estado altamente egóico, pois que agem protegendo a integridade do "eu" através do "ego" de uma forma bem peculiar. Mas, de um modo diferente daquele instituído pela psicologia. A esta só interessa o "eu" a despeito do "outro" enquanto que as religiões embora também considere o "eu" e o "outro" acrescentam um componente que chamam de altruísmo. Como disse Jesus "Amai ao teu próximo" essa expressão tem uma conotação plenamente dualista, diferindo da segunda parte quando complementa: "como a ti mesmo" cuja conotação é unista. Mesmo considerando o altruísmo, as religiões pregam o dualismo, pregam a separação afastando a pessoa da Realidade Única, tirando-a do caminho da libertação e orientando-a para o alvo da acomodação dualística. 

É o estabelecimento da Descontinuidade a origem do sofrimento oriundo da insegurança existencial como dualidade. Nesta condição o ser se sente desprotegido, vulnerável por todos dos lados levando-o a tentar inúmeras formas de preservação, modos para proteger a pseudo-ideia do "eu" individual, fortificando cada vez mais as qualidades que caracterizam o "ego" ao preço da ampliação da angústia primaria - angústia existencial - e da angústia secundária oriunda dos apegos.

Origem dos raptores de energia

JOSÉ LAÉRCIO DO EGITO  F.R.C.

Tema 1982
2009 - 3362

"É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe."
 Epíteto.

Qual a origem dos seres raptores, de onde eles procedem, como foram creados? Ainda não podemos dizer. Considerando-os demônios algumas religiões falam de “anjos caídos”, de seres celestiais que desobedeceram a Deus, ou mesmo que enfrentaram e lutaram contra o Poder Divino. Em parte sim, mas há muitos daqueles seres cuja origem é totalmente desconhecida.

O Hermetismo da V∴O∴H∴ não intenta se aprofundar nesse tipo de questionamento desde que ele afirma que tudo quanto existe na Imanência assim como ela própria simplesmente faz parte de uma gigantesca ilusão. Afirma, em consonância com certas doutrinas védicas, que tudo isso não é mais do que um artifício da própria mente, e que, portanto se trata de questiúnculas inerentes ao mundo de Maya.

Orai e vigiai contra as tentações, diz o Cristianismo, o Hermetismo diz; controla a mente contra a espoliação de energia. Aqui se confirma o que disse Jesus, “Conhece a Verdade e Ela te Libertará”. Para se libertar do jugo dos sugadores é preciso primeiramente que se tome ciência da existência deles, o que eles querem, e que, consequentemente, há premente necessidade da pessoa saber administrar a energia, sem o que não há possibilidade de libertação.

No tocante às afirmações das religiões do como lidar com os tentadores, basicamente a V∴O∴H∴ diz o mesmo que as demais doutrinas. As religiões falam que a pessoa para não ser tentada e condenada deve sempre estar de atalaia, de orar e vigiar, e até mesmo de fazer uso de certos meios como o uso de adereços, tais como rosários, símbolos, de fazer uso de mantras, hinos, pontos, chamadas; de aromas – incensos – e coisas assim. O hermetista também faz uso de tudo isso, sinais, símbolos, aromas, sons, orações, e outros, mas  explica porque esses meios de defesa pessoal atuam. Em especial mostra qual o objeto visado pelos “tentadores” – “sugadores”. Mas sabe como pode ser feita a defesa pessoal, mesmo prescindido dos meios citados.

Agora pensemos assim: o que o demônio quer do ser humano? Aumentar o seu poder? Mas como? Em que o ser – alma humana – pode beneficiá-lo? -  A V∴O∴H∴ explica melhor ao afirmar que eles querem angariar aquilo que não podem conseguir por si mesmos, a energia sutil abundantemente. A capacidade de atingir o objetivo é imenso nos sugadores, há daqueles seres que são poderosíssimos, diante dele o ser humano pouco pode oferecer em termos de resistência. Daí se dizer que nesse mundo o ser humano não exerce um papel maior do que o de uma “vaca leiteira” cujo dono é um predador. 

Não se sabe quantas mônadas distintas da nossa existem, e também quantas linhagens inumanas existem, e menos ainda qual é o alvo final de cada linhagem. Mesmo que a V∴O∴H∴ considere isso tudo como aspectos da ilusão, ainda assim ela não nega a tremenda importância que têm desde que o ser humano vive terrivelmente preso a ela, à ilusão do existir na Imanência para cuja libertação só existe uma forma a que consiste no sentir que tudo é mental. O ser é cativo da mente, é ela que lhe dá origem, pois na podendo perceber o ser, a mente o “fragmenta” em seres. Os seres são filhos da Mente são creaturas creadas por ela, por isso o ser é escravo de quem o gerou – a Mente.

Trata-se de entender que tudo isso faz parte das armadilhas da Mente, e que só há uma forma de libertação possível, conhecer a verdade. Conhece a Verdade e ela te libertará. Muitas doutrinas ensinam meios de defesa psíquica, ou seja, de defesa contra os predadores, mas podemos dizer que nenhum dele é suficientemente eficaz para  protegê-lo integralmente. A maior arma usada pelo hermetismo reside no fato de ser unista e consequentemente de trazer a certeza de que o universo é mental. Isso permite que se sinta que este mundo em maior escala, e tudo quanto se possa perceber, sempre é fruto de uma ação mental – Primeiro Princípio Mental. Não apenas saber, a V∴O∴H∴ fala e ensina muito a respeito de criação mental.

A possibilidade de criar mundos é a única maneira totalmente eficaz da pessoa se libertar dos grilhões dos predadores. Os predadores existem nesse mundo e a ação deles é impossível de ser totalmente anulada, mas temos que convir que eles fazem parte do modelo de mundo que de alguma forma criamos. É possível crear um mundo sem o lado predatório.

Não adianta pedir a Deus, não adianta orar, exorcizar, usar símbolos e objetos de poderes mágicos para evitar que se deixe de ser sugado. Tudo isso pode apenas atenuar a ação dos predadores, mas jamais anulá-los.  Não adianta pedir e sim sentir que a libertação está no conhecimento da verdade, no conhecimento da natureza predadora desse   mundo  e de que ele é fruto de nossa própria índole. O caminho é esse: Entender o máximo sobre a energia, e daí desenvolver a capacidade de crear intencionalmente. Num grau elevado o ser pode chegar a criar um mundo sem predação, ou mesmo se unir a um coletivo bem diferente deste.

No plano imanente qualquer mundo é predador, o mundo material é predador, o astral também e ainda mais. São mundos criados pela mente, mas não individuais.  A par de poderem ser criando em numero infinito, ainda assim o ser se defronta com limitação. Como “sua mente pessoal é muito restrita, nenhum mundo verdadeiramente vasto pode ser creado por uma única pessoa, mas existem muitos mundos elaborados por um somatório incontável de mentes, como acontece com esse mundo habitual em que estamos. Podemos dizer que ele  não é um “lego” individual, mas sim coletivo. O máximo que acontece é a pessoa dar um toque pessoal ao mundo hodierno, mas não gerar outro com tamanha quantidade de coisas e variáveis. Cada pessoa modifica um pouquinho o mundo habitual, isso faz com que ele seja próprio de cada um, contudo no contexto geral ele compartilha o mundo com miríades de seres que o mantém como o conhecemos.

Em nível muitíssimo elevado de domínio da energia, a pessoa pode mentalizar e crear um mundo com inexistência de predadores. Um plano desse pode ser considerado um mundo paradisíaco, um céu, por assim dizer. Existem mundos perenes assim, e a pessoa pode se deslocar para algum deles. Também pode criar qualquer tipo de mundo, mas como já temos  dito uma creação pessoal é muito limitada. Esse mundo habitual, ou mesmo o astral,  não são únicos, existem muitos outros ainda mais vastos e “consubstanciados” do que esse, alguns podem ser piores do que esse segundo a nossa escala pessoal de valores, mas outros podem ser bem melhores – infernais e celestiais. Só se sai desse mundo através da energia, não existe libertação total através de quaisquer outros meios.

Na luta pela energia há seres que vivem na defensiva, os humanos, por exemplo, e também os que vivem na ofensiva, os predadores. Na verdade todos os seres vivos são, de uma forma ou de outra, predadores por isso trata-se de uma qualidade inerente à natureza do mundo imanente. A chamada libertação consiste no ter adquirido a capacidade de crear outra realidade,e poder vivenciada. Na analogia com o lego, se torne capaz de montar outro lego. 

Nem sempre a libertação implica na creação de um “novo mundo”, pois como existem N mundos coletivos, então a pessoa pode sair e um mundo e penetrar em outro. Tem a possibilidade de sair, de “viajar” para outros mundos, e assim se libertar da natureza predatória do mundo habitual. As religiões diriam: a possibilidade de se libertar das garras satânicas. A V∴O∴H∴ diz: de se libertar do aspecto da mente que gera esse mundo predatório.

Quando fitamos a imensidão do Universo, vemos a possibilidade de trilhões de mundos equivalentes à terra, e então surge uma indagação: Todos eles são predatórios? - Na verdade há muitos mundos bem melhores do que a terra e também piores, contudo, de uma forma geral, todos são predatórios. Afirmamos isso porque no universo, quer em nível micro quanto em nível macro, tudo reside, tudo se processa da mesma forma – Assim como é em cima é em Baixo – e quer se trate de uma partícula,  um átomo, ou de uma estrutura qualquer sempre há captação ou incorporação de energia, configurando um estado de perdas e de ganhos, portanto de vampirização. As reações químicas na verdade são meios de  ganho e de perda de energia em que uma partícula toma energia de outra e assim por diante. 

Mas como esse universo que percebemos é mental, o que co-participamos de sua existência, foi mentalizado como predatório, então com certeza outros podem ser concebidos sem que sejam de natureza predatória. A própria ciência já diz da possibilidade de universos em que até mesmo as leis físicas são diferentes, isso quer dizer que as transferências de energia se processam de forma diferentes. Sendo assim sair desse modelo para outro, de um predador para um não predador, é uma forma de libertação, mas isso há grande quantidade de energia e capacidade de saber como administrá-la.

Sobre os que buscam o Hermetismo

JOSÉ LAÉRCIO DO EGITO  F.R.C.

"A natureza tem para tudo o seu objetivo"
 Aristóteles.
Tema 1232
2000 - 3353

Muitos aspectos do Unismo não analisaremos nestes temas, mas, como existe a necessidade de pessoas que chegaram a determinados patamares de compreensão avançarem em certos conhecimentos, então vamos estender um tanto mais o leque de ensinamentos. Não podemos negar-lhes o que pretendem, mas devemos orientá-los individualmente, pois, quando uma pessoa busca o conhecimento mais elevado, qualquer hermetista da V∴O∴H∴ tem o dever de instruí-lo. Por isto é que muitos conhecimentos de que chegamos a tomar ciência pretendemos dividi-los com o máximo de pessoas sinceramente interessadas, e que estejam suficientemente preparadas para receber informações de um nível não convencional. O critério de escolha do discípulo depende mais do seu grau de desenvolvimento espiritual do que propriamente de nós. Não é nenhuma pessoa que confere graus de admissão aos grupos de estudos herméticos em nível de Venerável, mas sim algo ligado à Egrégora do Hermetismo.

Temos grande desejo de poder contar com um grupo de estudos que permita penetrar num patamar bem mais elevado de conhecimentos, mas por enquanto temos que nos conformar em ter que esperar mais. De um total de quase duas centenas de interessados, em grupos que orientamos nos últimos dez anos de estudos herméticos, e por meio de mais de 1800 temas escritos até esta data, mesmo assim poucos deles chegaram ao nível de Veneráveis da Ordem Hermética.

Temos observado que, no transcorrer de mais de 20 anos à frente de grupos de estudos herméticos, a maioria dos inscritos acompanha os estudos simplesmente como um estado de empolgação, de descoberta do novo, mas não com o intuito de desenvolvimento pessoal. Quando os integrantes de um grupo terminam de receber os ensinamentos básicos, quase nenhum deles inicia a segunda fase de preparação, que consiste em por algum tempo continuar sozinhos a busca.

Na primeira fase é transmitido o conhecimento básico, os Princípios Herméticos são apresentados, e o buscador, quando está encerrando o primeiro nível, chega por dedução a condições complementares e a algumas outras deduções relativas aos Princípios Herméticos. A partir daí ele deve caminhar sozinho por certo tempo. Se houver conseguido entrar em sintonia com a Egrégora da Ordem, ele continuará com a mesma inquietude de busca, e o orientador, pressentindo isto, continua transmitindo ensinamentos complementares. O orientador apenas leva o discípulo até o portal do “templo”, mas não penetra com ele. Nessa etapa cada um tem que seguir sozinho, mas, se continuar “ligado”, outras oportunidades ocorrem, e, em especial, se o estudo foi feito com seriedade, ele por certo começará a receber ensinamentos de forma direta, por intuição. Para isso é necessário que haja conseguido certo nível de abertura das portas da percepção.

É nesta fase de teste que se vê se o discípulo está ou não preparado. Se ele estiver, ele “penetra no portal”, ou seja, continua a sua busca, e o orientador sabe disso pelo interesse demonstrado. Se não está preparado, ele pára ali, deixa os estudos de lado, acomoda-se satisfeito com o que já pensa conhecer. É comum que alguns se julguem mestres, ou até mesmo orientadores. Muitas organizações, que se auto-intitulam de “Ordens Iniciáticas”, surgem a partir de discípulos que não ultrapassaram o portal, mas que, apoiados na base que receberam, fundam organizações, etc. Outros começam a praticar alguma forma de proselitismo.

Vale o que é dito nos Evangelhos: “Muitos serão chamados, mas poucos os escolhidos.”

Pode acontecer que alguns parem “diante do portal”, que não penetrem, mas continuem ligados ao anseio de mais conhecimentos preliminares. A esses o Orientador pode ampliar um pouco mais o horizonte do conhecimento hermético, visando despertar o interesse deles em prosseguir e atravessar o portal.

No passado, nas Escolas Iniciáticas, após o conhecimento básico, o discípulo era considerado apenas um “buscador”. Ao completar a primeira etapa, era levado ao Portal do Templo, onde deveria penetrar sozinho para cumprir algumas “provas”. Depois se seguia outra fase em que o buscador, por um período de três anos, ficava afastado dos ensinamentos do templo. Nessa fase, alguns escolhiam o isolamento em algum lugar, muitos iam para o deserto, mas a maioria preferia caminhar de cidade em cidade, sem contacto com os orientadores, enfrentando as vicissitudes, enfrentando as “tentações da vida”. Por caminhar de lugar para lugar eram chamados de “peregrinos”.

As Ordens Tradicionais se adaptam às épocas; hoje os estudos herméticos não ocorrem em templos, eles podem ser feitos em muitos lugares. Muitas vezes o buscador não conta nem sequer com um orientador próximo, pois a busca solitária também é válida. Mas geralmente acontece como no ditado: “Quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece.” De alguma forma, em decorrência da ligação que o discípulo estabelece com a egrégora hermética, de uma forma ou de outra ele acaba localizando um orientador sem que precise sair procurando, pois a ocasião se apresenta. A V∴O∴H∴ não atribui o título de Mestre àqueles que preparam os discípulos, pois, segundo os ensinamentos arcanos, o Mestre Hermético é a própria Egrégora.

Na Egrégora está registrado tudo aquilo que diz respeito à Ordem, e isto faz com que o buscador (busca-dor), sem que se dê conta, acabe por localizar alguma pessoa que possa lhe servir de orientador, de prepará-lo, para que possa receber o conhecimento diretamente da Fonte.

Muitas vezes as coisas acontecem de forma inusitada. Por exemplo, acontece que um buscador, que vive em um lugar onde não possa contar com um orientador, sinta vontade de se mudar para outra cidade. Ele mesmo nem sabe por que está querendo se mudar de uma cidade para outra, até mesmo de um país para outro, movido ou não por diferentes razões. Isso acontece amiúde porque ele está sendo conduzido ao encontro de um orientador. No passado, a pessoa tinha que buscar um templo, que podia ser perto ou distante. Na atualidade a busca de conhecimento leva a pessoa a um orientador, a alguém que pode instruí-la, até mesmo numa praça pública. Hoje muitos ensinamentos arcanos estão sendo transmitidos pela própria Internet, mas é preciso separar o joio do trigo.

No passado, após o buscador haver assimilado os conhecimentos básicos, ele se retirava do templo e ia para um lugar solitário, até mesmo para o deserto, ou peregrinava durante um determinado período de tempo. Durante aquele período não recebia ensinamentos diretamente do Instrutor, mas os recebia mentalmente, às vezes sob a forma de “descobertas pessoais”; outras vezes, sem que o soubesse, “encontrava pessoas comuns” com as quais conversava, e aprendia muitas coisas “novas”. Esse era o período de peregrinação, daí o título que a pessoa recebia: “Peregrino da Senda”.

Hoje, em essência, tudo permanece como antes, é oferecida à pessoa a oportunidade de estudar o Hermetismo. Para isso sempre surge alguma oportunidade, desde que a pessoa tenha um mínimo de preparo e de interesse sincero. Acontece que, ao integrar um grupo, muitos são movidos por vários tipos de interesse, assim nem todos chegam ao fim da primeira etapa, nem todos conseguem chegar ao fim daquilo que pode ser chamado de “primeiro grau”, e receber o título de “Peregrino da Senda”. Alguns permanecem, cumprem a primeira fase, quando então o grupo é desfeito. Aí começa a fase em que o discípulo tem que peregrinar sozinho, isto é, voltar às suas atividades normais, a atuar em sua religião, ou em outros movimentos. Essa etapa é aquela representada na “Iniciação do duplo caminho” (Tema 0.424), também popularmente conhecida como a “Iniciação do Y”. É aí que ele tem diante de si dois caminhos distintos, o do mundo do conhecimento superior, e o da vida comum. Esta situação está simbolicamente representada na iniciação do duplo caminho[1].

Em nenhum momento é perguntado ao Peregrino se ele quer continuar. Se o fosse, por certo diriam sim, quando na prática mostram que não.Prosseguir é uma decisão pessoal e muito sutil, mas que todos os buscadores vivenciam. A quase totalidade escolhe o caminho oposto ao do conhecimento,escolhe exatamente a “via da acomodação”. Acomoda-se naquilo que estava antes,continua fazendo o que sempre fez, apenas com um pouco mais de conhecimento,mas não de sabedoria, ou, o que é mais lastimável, passa a usar o conhecimento em proveito egoístico, quando não maléfico, e por esse tipo de atitude leviana está sujeito a pagar um preço muito alto.

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[1] Esse mesmo sentido foi representado no filme MATRIX, quando foi dado a Neo escolher entre duas pílulas, uma azul, que corresponderia ao viver na ilusão, mas viver sem maiores problemas, ou a vermelha, que levaria ao conhecimento da verdade, porém trazendo em seu bojo uma terrível luta pela libertação.

Contato: peregrinodethoth@gmail.com

Libertação da mente

PEREGRINI SANTIAGO

"Um ser liberto do Mundo Imanente é um ser liberto do próprio e aparente ego, motivo pelo qual é um espírito liberto da fantasia de separatividade entre as coisas, seres e eventos."
— P.

O Universo, por Ser Mental, não revela, por assim dizer, a sua face oculta, qual denota a própria Realidade, isto é, a Consciência, o Infinito. Logo, a existência enquanto tal não é real em aparência, mas sim em Essência.

A essencialidade da Universo por si só não tem nenhum sentido para o intelecto, porque a Mente não consegue enxergar/perceber a totalidade do Infinito, o qual não não tem início, nem fim, não sendo, portanto, descontínuo, nem quantificável. Ora, então, a Libertação não ocorre ao nível do Infinito em si - a Essência interpenetrante-constituinte do Universo -, mas sim ao nível da existência aparentemente fragmentada. Em outras palavras, a Libertação somente ocorre a partir da ilusão de finitude das coisas creadas, do próprio Universo, então. Podemos afirmar também que a Libertação denota o distanciamento efetivo da ilusão de fragmentação, qualificação, mensuração e localização dos seres. Portanto, denota a fuga do Universo, das suas leis atuantes sobre os seres e objetos. A Libertação envolve grande força-querer do espírito no sentido de ter a efetiva vontade de se liberar do jugo da mente pessoal, pela qual sofre tantos dissabores, embora também tantos prazeres. A Libertação não ocorre subitamente pelo desejo de o espírito querer sair do "mar de ilusões" que é a creação. Ocorre também pela percepção paulatina do tédio do existir, pelo qual os dissabores e as supostas novidades das múltiplas experiências deixam de atrair a atenção, pois, mesmo temporariamente interessantes - pelo prazer de jogar o "game universal" -, geram progressivo cansaço e desgastes.

A Libertação, portanto, é progressivamente impulsionada pelo querer sair da prisão que é o Mundo Imanente, tão complexo em seus aspectos de conflitos interesseiros entre outros níveis. O movimento em direção à Libertação é sustentado pelo tédio da constatação pessoal do círculo vicioso das regras mentais mantidas unicamente pelo espírito, as quais, como vimos, tendem a cansá-lo. Ao mesmo tempo, haja vista que o processo ascendente de Libertação envolve diversas percepções, compreensões e vivências das variadas experiências pelas quais passa o ser, a ela se liga naturalmente a progressiva ampliação da percepção pessoal, logo, o alargamento da lucidez existencial. A Libertação representa o fim do processo cósmico-cíclico do existir mentalmente, logo, do existir como ser auto-ciente; exprime, digamos assim, a etapa imediatamente superior à cientificação efetiva, pois, após ter-se dado e mesmo sentido a sua condição de Unicidade indiferenciada perante tudo quanto há, a mente, cosmo-sabedora de sua condição cientificada, pela qual enxerga, então, as ilusões às quais se submetia; assim, a mente tenderá a se libertar das dor e do prazer, os quais eram sustentados por si mesma.

A Libertação denota a consumação perceptiva e vivencial da mente escapando às ilusões de separatividade que ela mesma gerava pelo próprio ego enganador e divisionário. Podemos afirmar, por conseguinte, que a Libertação exprime a volta ao estado Único; a volta do ser ao estado de Ser. O "retorno" à condição de Unicidade Cósmica, em que tudo quanto há é simultaneamente cosmo-sentido como UMa Única condição, motivo pelo qual a Libertação está além da racionalidade, portanto, além do próprio espírito destacado. Mas a maioria das pessoas ainda está deveras distante da Libertação, porque ainda estão subjugadas-fascinadas pelos [aparentes] próprios egos e os dos outros, basicamente porque sentem prazer em continuar a vivenciar experiências. Mesmo assim, chegará o momento em que o espírito libertar-se-á, para, assim, "voltar" a vivenciar a condição cósmica inefável de Ser UM, na simultaneidade indiferenciada diante de tudo quanto há.

Do que temos exposto, falamos um tanto acerca de um dos níveis da Libertação, por assim dizer. Um ser liberto do Mundo Imanente é um ser liberto do próprio e aparente ego, motivo pelo qual é um espírito liberto da fantasia de separatividade entre as coisas, seres e eventos. Ora, no Universo, que é Mental, o ser ainda não está liberto. Pelo contrário, está preso. Primeiramente, preso a si, ao jugo da própria mente; está preso aos desejos, às sensações, até mesmo às compreensões e às percepções. Grosso modo, preso ao próprio existir como entidade egoica cognoscente. Ora, então, é a prisão que parece indicar, no atual universo creado, o único cosmo-modelo geral do existir (a existência atual, creada, em seus múltiplos aspectos, leis, etc.), que, a partir das vivências que ocorrem, devido às atuações individuais e individualizadoras da mente destacada do espírito, representa as inúmeras expressões de ação do espírito preso ao ego. É pela prisão da sensação de si que o ser se percebe como alguém existindo em locais, ao longo do tempo, em inúmeras vivências intelectuais, psíquicas, energéticas, físicas, etc. Sem a prisão do existir, não haveria nenhum sentido para a própria Libertação, porquanto, se o ser não se sentisse ou não se percebesse como prisioneiro, evidentemente não buscaria se libertar.

A rigor, mesmo que soe incoerente, não existe "Libertação do Mundo Imanente", mas sim Libertação do ego pessoal, a partir do qual o ser elabora as vivências de realidades. Como o Mundo Imanente é ilusório, logo, não tem consistência objetiva, não possui constância de aparência e conteúdo, não pode o espírito dele se libertar. Ora, então, não sendo a Imanência a referência existencial nuclear a partir da qual a Libertação tem sentido filosófico de retorno à Unicidade Cósmica Indiferenciada, podemos falar, então, da impossibilidade de vincularmos a Libertação a Imanência? Não e sim, ao mesmo tempo. Como vimos, a Libertação efetiva, digamos assim, é a Libertação pessoal da mente. Mas, uma vez que o espírito se crê/tem a convicção de existir no espaço-tempo do Universo creado, é claro que, em termos didáticos, podemos, sim, falar de Libertação do Mundo Imanente.

Na realidade, enquanto o ser vivenciar a ilusão de seu ego destacado na Imanência, a ela está preso, pela mente, a qual, como afirmamos, sustenta a própria sensação de realidade(s) vivenciada(s). Ao mesmo tempo, é justamente devido à ilusão da prisão do Mundo Imanente, que a sensação de experiências, incluindo, a de liberdade, existe, mediante a qual o ser amplia lentamente sua percepção, aproximando-se da ausência de descontinuidades sentidas, logo, ausência de liberdades, o que representa a Libertação.

O pessoal, o profissional, o estudantil e o instrucional: as relações interpessoais no âmbito místico-filosófico

PEREGRINI SANTIAGO

“Nada está errado; nada está certo. Nós simplesmente escolhemos e consideramos o que deve ou não deve ser feito."
— P.

Em outro artigo, abordamos a questão da dupla dimensão de projeção comportamental da pessoa diante da sociedade, quando, nesse contexto, considerada simultaneamente "autora e "narradora". Embora já tenhamos falado um tanto desse tema no referido texto, é razoável que a ele voltemos aqui.

Nos estudos herméticos, particularmente a partir da Segunda Câmara, começamos a abordar e a aprofundar o estudo do Universo desde a perspectiva do olhar e do comportamento pessoal, para o qual convergem todas as coisas, seres e eventos observados, pelo qual tudo o que é vivenciado como "experiência" ganha sentidos relativos e flexíveis. Isso ocorre devido à atuação das crenças e dos códigos de conduta, os quais representam maneiras a partir das quais a pessoa compreende, interpreta, observa, racionaliza e vivencia a realidade em que está. A crença denota a forte convicção pessoal na existência de algo; é o conjunto subjetivo de elementos significativos que elaboram as impressões de realidade.

Assim, qualquer objeto e ideia acreditada existe mentalmente no seio da força simbólica da crença, o que, portanto, gera progressivas e mutáveis realidades de mundo. Nesse processo, os códigos de conduta têm relevância nuclear, pois, como crenças na realização "adequada" ou "correta" desta ou daquela ação, em consonância com modelos previamente ditados pela sociedade, induzem o indivíduo a fazer para si o que, a rigor, é feito para outrem. Por isso é que até mesmo eventos simples e comuns como "cumprimentar alguém" ou "almoçar em determinado horário", geralmente são expressões intersubjetivas de crenças sociais generalizadas, pelo comportamento repetido e endossado.

Haja vista que as ações humanas, quando vista à luz do comportamento, são, basicamente, meras expressões de códigos de conduta, reforçados em mútuo acordo pela coletividade, não são naturais em si; não dependem apenas da espontaneidade sistêmica do organismo biológico de cada um. Dependem, por outro lado, das normas e impressões de "retidão" comportamental que o "outro" impõe a cada pessoa, de maneira que são elaboradas progressivamente conforme o contexto cultural e também conforme as intencionalidades estratégicas da pessoa. Isso significa dizer que o indivíduo, enquanto ser histórico, geográfico e social, não expõe a seu bel-prazer a naturalidade e a plenitude dos seus desejos. Pelo contrário, em geral, os bloqueia diretamente, amiúde pelo temor de não ser aceito e não ser aprovado pelo outro, logo, pelo olhar inquisidor e crítico das diversas crenças no "valor da retidão" impostas socialmente, desde tenra idade. Basicamente por isso, a pessoa se vê constrangida pelos códigos comportamentais, ao mesmo tempo em que os valoriza localmente, a fim de realizar seus aparentes intentos, quando, na verdade, quase sempre, são os desejos alheios os a serem individualmente realizados.

Logo, indiretamente ou não, a cultura dita as "normas de conduta" a serem respeitadas, seguidas e, muitas vezes, até mesmo "temidas", sob medo de o indivíduo não se firmar na posição social que almeja. Essa questão, portanto, traz à tona a problemática do convívio em sociedade, cujos modelos de realidade, vinculados a um sem número de "regras", devem ser realizados. Essa realização, quando em consonância com tais modelos, é o motor intersubjetivo fundamental a partir do qual o sentido de "normalidade comportamental" se assenta. Ora, como a maioria dos indivíduos está intensamente impregnada de códigos e mais códigos de conduta, é lógico concluirmos que cada pessoa raramente pensa por si. Pensa, então, não apenas no outro, mas pelo outro e para o outro. Isso nada mais é do que mera "fantasia pessoal", porque, a rigor, o outro apresenta níveis de percepção, compreensão e sensação distintos. Logo, o outro é o outro; não há coincidência efetiva entre as percepções.

Na medida em que o outro, por exemplo, é visto como "autoridade", apenas reforça ocultamente, por parte daquele que ouve/lê, um discurso ideológico de "superioridade", o qual, porém, é meramente condicionado por expectativas intelectuais diante de determinada gama de conhecimentos. Essa fantasia, condicionada pelo saber cultural de dada época e local, sustentada pelas expectativas pessoais, tende a indiretamente gerar frustrações intensas, quando não corresponde ao que o outro faz no cotidiano.  É a tendência de a mente projetar em outrem aquilo que lhe falta e aquilo que considera "correto", "a ser seguido". Ora, isso denota, como dissemos, mera "fantasia"; a rigor, o outro apresenta níveis de percepção, compreensão e sensação distintos. O "inception" normativo-comportamental ao qual as pessoas são progressivamente submetidas é a força simbólica maior dos acordos interpessoais e, mais grave ainda, dos "limites" da racionalidade do comportamento e da razão. 

Isto posto, é claro observarmos que a pessoa jamais age plenamente em prol dos seus múltiplos e caóticos desejos, pelo divino poder do querer. À medida em que é exposta à educação, à orientação e à instrução, é moldada culturalmente, de modo a realizar aquilo que dela o outro espera. Por isso, cada indivíduo nunca está psicologicamente "só", mas sim cercado de diversas crenças, as quais internaliza, o que, aos poucos, forma a sua personalidade, a qual, então, não é propriamente "personativa" e "individual", mas um conjunto individual flexível de crenças e expectativas. Isso, porém, não invalida a experiência individual e intransferível, porque cada pessoa é um universo subjetivo que sente por si e para si, apesar de querer comunicar isso ao outro, geralmente a serviço dele. Nisso, reside, entre outras coisas, a problemática das expectativas de aparência e função em relação a cada pessoa. Em outras palavras, gera a sensação geral segundo a qual as pessoas devem se comportar de acordo com seus perfis comportamentais, os quais, porém, já são previamente acordados pelas normas de conduta social. Ou seja, não existe perfil pessoal comportamental em si.

Pelo exposto, não é difícil concluirmos que amiúde o que esperamos de alguém é exatamente aquilo que esperamos em relação aos modelos comportamentais idealizados pela sociedade, motivo pelo qual, a rigor, o classificar e o julgar o outro é, no máximo, uma reprodução social de convenções normativas e estéticas. Não é absolutamente possível que tenhamos acesso real a quem quer que seja, pois nossa suposta interferência na conduta de outrem é fruto de nossas impressões comportamentais internalizadas como "adequadas" ou "corretas", em contraposição às que tomamos por "inadequadas" ou "incorretas". Classificar e julgar alguém não é um exercício natural e genuíno da racionalidade, mas sim a projeção pessoal de ocultas crenças no "valor pessoal".

No meio místico-filosófico, não é diferente. Nele, as imposições pelas crenças de cada olhar são ainda preponderantes, o que paradoxalmente vai na contramão do que a essência do Misticismo quer: a reintegração cósmica e indiferenciada com o TODO. A quase totalidade dos estudantes e até mesmo dos que ensinam classificam e julgam a todo momento, mormente quando contrariados em seus pretensos "valores éticos e morais". Isso explica a espantosa quantidade de contendas e mesquinharias no seio dos grupos esotéricos, não importando a Ordem, confraria e a linha de abordagem mística. A maioria está muito mais preocupada em ver e manter no seu âmbito aqueles que a bem consideram e seguem exatamente os ensinamentos desta ou daquela doutrina do que em reconhecer e aceitar a diversidade perceptiva e opinativa de cada um. Quando, diante de uma pessoa que, principiante ou avançada nos estudos místicos, percebe algo que contraria a visão doutrinária do "líder", ele geralmente a repudia por isso, até mesmo tenderá a difamá-la alijá-la do seu grupo. Isso é mais comum do que se imagina.

Mas, perante essa situação, o que, de fato, ocorre? Na realidade, o que acontece é que a doutrina mística internalizada passa a ser mais importante do que a racionalidade e a lucidez individual, logo, trata-se da eclosão de dogmas no indivíduo, embora, com frequência, negue isso. Em face do exposto, na área dos estudos místico-filosóficos, podemos didaticamente organizar o indivíduo em quatro dimensões, relacionadas entre si: i) Pessoal; ii) Profissional; iii) Estudantil; iv) Instrucional. Lembramos que essa divisão não é natural, nem "exata", mas apenas uma formas pela qual podemos compreender melhor as complexas e intensas ações comportamentais no âmbito da instrução esotérica.

"dimensão pessoal" é, como o próprio nome diz, aquela que responde pelos desejos e comportamentos frequentes e espontâneos da pessoa, isso inclui, por exemplo, suas inclinações estéticas, espirituais, passionais; suas percepções existenciais, etc. O nível pessoal da imagem do indivíduo, apesar de não ser absolutamente natural, devido às crenças e aos condicionamentos culturais aos quais se expõe, é deveras intenso e significativo, pois representa o cotidiano circunstancial de cada um (relações em família, hábitos gerais, etc.). Quanto à "dimensão profissional", em geral, obedece a modelos de conduta formal esperados em cada área de atuação da pessoa, o que, mesmo não sendo efetivamente "fixo", porquanto as profissões são dinâmicas em suas formas de expressão, ainda é muito relevante para que cada área profissional se apresente em suas características e deontologia. Por isso, os comportamentos "éticos" são desejados e reforçados. Isso torna as interações profissionais complexas, mas, ao mesmo tempo, é localmente relevante para que cada profissional realize as funções para as quais está designado ou ele mesmo se designa.

Evidentemente, tudo isso é uma rede de códigos comportamentais socialmente imposta, não obstante, é uma condição, , "sine qua non" para a coesão dinâmica das profissões em geral, notoriamente no modelo econômico das relações capitalistas. Nesse âmbito, o lado meramente "pessoal" do trabalhador fica, em geral, relegado ao segundo plano, em prol das formalidades da importâncias da realização funcional de cada tarefa. A "dimensão estudantil" é aquela representada pelo comportamento pessoal de estudar e aprender algo. Como modelo clássico, temos as "salas de aula", em que os professores devem ensinar aos alunos. Isso os coloca num contrato social no interior do qual um das partes é assimetricamente mais bem considerada (os docentes), haja vista sua alegada sapiência em relação ao conteúdo ensinado. Mas ambas as partes aprendem sempre, pois a Mente está em frenética busca do conhecimento e de vivências diferentes.

Podemos afirmar que todas as pessoas, independentemente de suas origens sociais, são estudantes. Como seres racionais, desejam e estabelecem diversas metas pessoais, motivo pelo qual o aprender a como realizá-las se faz sempre presente. Quando à "dimensão instrucional", trata-se justamente daquela em que o indivíduo se propõe a ensinar e o faz, no caso da presente exposição, no âmbito místico-filosófico. Essa dimensão é culturalmente forte demais devido às intensas expectativas comportamentais de "notório saber" e "retidão pessoal" em relação ao Instrutor. Logo, espera-se dele não apenas transmitir conhecimentos, mas também atitudes "corretas" diante dos seus discípulos, no seu contexto de estudos e até mesmo no dia a dia.

Nesse sentido, o valor de um Instrutor místico estão diretamente relacionado às suas ações, as quais, se em consonância com os seus dizeres e com o que se espera comportamentalmente dele, ganham força e se mantêm "coerentes" consigo. Nisso, o percurso histórico-biográfico do Instrutor desempenha um papel fundamental, na medida em que, quanto mais anos de experiência tem, mais socialmente é bem considerado e, em alguns casos, até mesmo "venerado". Ora, mas ocorre que tudo isso que acabamos de expor, tanto nas dimensões "pessoal", "profissional", "estudantil" quanto na "instrucional", são, a rigor, meras projeções de expectativas ideológicas, advindas de olhares mergulhados na fantasia da "retidão", da "importância" e da "superioridade" dos valores de conduta. 

É claro que muitos insurgir-se-ão contra a afirmação imediatamente anterior, dizendo que os "valores de conduta" são "reais" e "objetivos". Mas, na verdade, não são. Todas as relações interpessoais em sociedade existem em função de miríades de "acordos firmados ou quebrados" diante de modelos comportamentais idealizados e repetidos. Até mesmo a instrução mística não deve ser encarada como "algo puro e superior", mas sim como um relevante meio pelo qual o Instrutor auxilia o desenvolvimento espiritual de seu discípulo, mas em conformidade com modelos contextuais de observação, compreensão, interpretação e vivências de mundo, os quais, como sabemos, variam demais entre si. Embora a Verdade seja UMa só, é mentalmente percebida em inúmeras "partes" e as doutrinas representam elaborações elegantes de como as pessoas analisam e interpretam as realidades em que contextualmente estão.

Uma vez que cada pessoa é um mundo subjetivo próprio, porém, culturalmente condicionado pelo cruzamento instável do olhar e do julgar das crenças, não deve ser vista somente a partir deste ou daquele aspecto, cuja validade, aliás, varia conforme o modelo de expectativa comportamental adotado. Assim, não existe um "Instrutor de fato", "independente de seu cotidiano pessoal ou profissional", da mesma forma que não existe um estudante "independente de seus hábitos informais". O que existe é uma rede interpessoal de complexos entrelaçamentos de conduta, para os quais a "ética" e a "moral" pretensamente reservam lugares "fixos" e "determinados".

O Universo é Mental, portanto, tudo é ilusão. Ninguém "tem que ser assim ou assado"; ninguém "tem que fazer isso" porque uma doutrina ou um líder místico "afirma". As pessoas, por exemplo, quando não realizam a conduta esperada dentro de contextos de estudo, são imediatamente "classificadas, julgadas e condenadas" como "isso ou aquilo". Contudo, essa classificação e esse julgamento não vêm do outro, mas sim das crenças nas condutas "certas" que ele sustenta. Cada um pode fazer o que quiser, mas sabendo que, devido aos códigos sociais, determinada ordem local de é esperada. Não existe nada "errado", nem "certo". Os eventos simplesmente acontecem e, aliás, o Universo é indiferente às nossas crenças; o Poder Superior não nos julga, nem nos considera "impuros" e "errados". São as ideologias passageiras que rotulam, condenam e afastam, pelo medo egoísta de perderem a fantasia de sua validade diante daqueles que as seguem.

A respeito dos Doze Princípios

PEREGRINI SANTIAGO

"Os Princípios Herméticos são as Leis Universais que manifestam, formam e estruturam o mundo."
— P.

Existem diversas explicações simbólicas para o número DOZE. Neste caso, isto é, na atual proposta temática, didaticamente falando, trata-se dos impropriamente denominados DOZE PRINCÍPIOS HERMÉTICOS[1]. Contudo, a rigor, não são "Doze Princípios em si", o que veremos em breve, aqui neste espaço.

Se considerarmos quantitativamente os Princípios Herméticos em "Doze", veremos que, entre as inúmeras propostas simbólicas de explicação relativas ao número DOZE, duas delas são, por assim dizer, as "fundamentais" e, de certa forma, as mais simples. Uma delas é de fundamento estritamente metafísico-simbólico e espiritual; a outra refere-se à quantificação da fenomenologia (observação-classificação de fenômenos e condições na natureza) no universo creado. Devemos lembrar que, a rigor, não são "Doze Princípios em si", mas UM Enunciado, Seis Princípios e Cinco Bases Universais.

Um enunciado significa a verbalização filosófica segundo a qual algo é afirmado. Neste caso, trata-se do Enunciado Hermético Fundamental, na medida em que tudo quanto há manifesto, todas as operações perceptivas e cognoscitivas dos seres apresentam-se como relação psíquicas, logo, mentais. Quanto ao "Princípio", apresenta dois sentidos básicos: i) Lei natural ou norma organizadora; ii) Início de algo. Grosso modo, os Seis Princípios (Vibração, Causalidade, Correspondência, etc.) atuam como leis naturais, pois se realizam como tais em todos os planos dimensionais da existência creada, mantendo-as coesas e funcionais. Por isso, a Vibração, independentemente da crença pessoal, é um fenômeno comum a todo o Universo, pois a partir dela as coisas se originam e se manifestam diferentes entre si.

Contudo, didaticamente falando, em geral, afirma-se que são "Sete Princípios Herméticos", para, desta forma, facilitar um tanto a compreensão a respeito das Leis Universais. Ao mesmo tempo, para evocar o SETE, que representa a AÇÃO NO UNIVERSO, pois as relações vibratórias ocorrem em sequências sétuplas. Quanto às Cinco Bases, que devem ser pessoalmente descobertas, não são "Princípios em si", porquanto funcionam como suporte de existência para a atuação dos Princípios. Além disso, as Bases Universais não podem ser empiricamente demonstradas em si mesmas. Dependem de relações com objetos, seres e eventos, os quais se expressam em obediência aos Sete Princípios Herméticos.

Em face disso, por que, então, haveria Doze componentes estruturantes do Mundo Imanente? Por que, didaticamente, "Doze Princípios Herméticos" e não "onze" ou treze", como exposto na presente proposta de discussão? Na realidade, devemos perceber que em todo sistema de medição quantitativa existem parâmetros numéricos a serem observados, os quais dependem de circunstâncias observacionais e, neste caso, logicamente racionais. No que tange aos Sete [Seis] Princípios (como Leis naturais), têm sido quantitativamente assim descritos e organizados devido à sua invariância de quantidade diante das experiências subjetivas.

A diferença entre "Vibração" e "Polaridade" não se refere somente a uma distinção nominal, mas manifestativa, isto é, uma diferença de expressão natural, o que, então, implica na observação e racionalização do olhar classificador em relação a aspectos fenomenais diferentes entre si. Assim, a Vibração indica que algo "vibra"; a Polaridade denota que o objeto se expressa vibratoriamente em extremos polarizados ("quente" e "frio", por exemplo). Logo, experiência e a observação de padrões na natureza dão sentido à classificação quantitativa em "Sete Princípios" (incluindo didaticamente o Enunciado Fundamental).

A este respeito, devemos salientar que, quando os parâmetros de observação, racionalização e classificação mudam, a constatação subjetiva lógica em face do fenômeno também muda. Em outras palavras, o processo classificador de um evento naturalmente regular como "Lei" ou "Princípio", embora esteja ligada à circunstancialidade de invariabilidade do evento, obedece a critérios formais de organização. Sem isso, não haveria ordenação classificadora em relação às Leis Naturais. Continuariam a existir, porém, não teriam logicidade organizadora para o intelecto. Seriam somente eventos de experiência, não intelectualizados. Desta forma, a classificação quantitativa em "Sete Princípios" obedece simultaneamente à observação e vivências de experiências regulares na natureza e à sua classificação racional.

Quantos às Cinco Bases Universais, a rigor, dependendo da classificação, até poderiam ser consideradas como "Quatro", mas didaticamente são descritas em "Cinco" devido às impressões subjetivas de vivências em relação a cada uma delas. De fato, todas as Cinco Bases, em seu conjunto, estão a serviço da manifestação e atuação das Leis Naturais, dos seres e eventos no Universo. Separando-as e analisando-as, podemos concluir que estão necessariamente ligadas aos Sete Princípios, pois cada uma delas está associada às experiências advindas dos Princípios. É claro que, se houver alguma mudança organizacional e classificadora em relação às Cinco Bases, não falaremos mais de "Doze Princípios".

Devemos lembrar que a classificação quantitativa de eventos e leis naturais está subordinada a parâmetros de medição convencional. Além disso, existem outras explicações para a existência de "Doze Princípios", sendo a mais básica das quais a relação multiplicativa do nível espiritual (UM-DOIS-TRÊS) com o mundo material (QUATRO). Logo, a interdependência da matéria com o espírito; um não existe sem o outro.

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[1] Ao contrário do que muitos pensam, não são Sete Princípios Herméticos em si, mas Doze Princípios, os quais são apenas assim considerados quantitativamente por razões didáticas. Estritamente falando, são Seis Princípios, Cinco Bases Universais e Um Enunciado Fundamental, como no presente artigo explicamos.